O governo federal bloqueou 292 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado em instituições de ensino superior de Minas, de forma gradual, a partir deste mês. A medida, anunciada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vai, na prática, fechar 65% das bolsas de pesquisa no Estado e coloca em risco estudos em diversas áreas, dentre elas de remédios, inovações tecnológicas e até de material para indústrias.

O congelamento de recursos acontece, segundo o órgão, para obedecer o contingenciamento de R$ 5,8 bilhões do Ministério da Educação (MEC), imposto pelo governo. O critério, segundo o presidente da Capes, Anderson Ribeiro Correia, é qualitativo, e não prejudicará as pesquisas em andamento.

“O impacto para os bolsistas é zero. Todos os bolsistas em vigor permanecerão com as bolsas, seja no Brasil ou no exterior”, disse o gestor, em coletiva de imprensa. Os programas que serão reduzidos são os que tiveram, nas últimas duas avaliações, em 2013 e 2017, notas 3 ou inferior. Em Minas, 47 projetos se encaixam no índice.

Paralisação
Para os gestores da área, o anúncio do governo preocupa, pois não é o primeiro e indica uma série de redução de investimentos num setor que é considerado essencial na atividade universitária. Na visão dos especialistas, com menos pesquisadores, os projetos passam a ficar cada vez mais sucateados.

É o que pode acontecer com as pesquisas do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-MG), onde 18 das 27 bolsas das áreas de educação tecnológica, engenharia de materiais e engenharia elétrica não poderão ser ofertadas. Segundo o diretor de pesquisa e pós-graduação do instituto, Conrado Rodrigues, trabalhos que desenvolvem insumos para remédios e peles artificiais, que podem ser usadas tanto na medicina quanto na produção de cosméticos, estão sob risco.

Dentre as pesquisas desenvolvidas na UFMG que tiveram cortes, estão soluções para reciclagens de pilhas e baterias e técnicas para controlar hemorragias em mulheres no parto

“As pessoas deixam de procurar emprego para se dedicar integralmente aos cursos de mestrado e doutorado, ficando por conta do desenvolvimento de pesquisas e análise de resultados que impactam a vida de toda a população. Sem bolsa, isso é impossível”, diz o professor.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência, Ildeu Moreira, cortes desse nível podem causar fugas de especialistas e escassez de projetos que podem ser essenciais para solucionar problemas do país.

“A maior parte da produção científica brasileira é produzida na pós-graduação. Isso é uma coisa essencial da ciência, o motor para soluções inclusive na economia. Se você desmonta grupos de pesquisa, aquela experiência vai embora. Depois, você tem que começar do zero, falta gente formada, laboratórios ficam sucateados”, completa. 

Na UFMG serão 17 bolsas bloqueadas. Na pós-graduação em engenharia química, por exemplo, sobrará apenas uma bolsa de pós-doutorado. A coordenação diz que ainda não é possível indicar todas as pesquisas serão afetadas.

Procurado, o MEC informou que os critérios utilizados pela Capes para a definição das áreas contingenciadas obedecem definições “qualitativas e técnicas”, levando em conta a produtividade das áreas.
 
Ainda segundo a pasta, os bloqueios de verbas, que envolvem todas as estruturas dos ministérios, poderão ser revistos, ainda este ano, caso os ministérios da Economia e da Casa Civil sinalizem melhora econômica com a aprovação de “reformas fundamentais, em especial, a da Previdência”.